Era verão, pelo menos me lembro como tal. Estava no começo da adolescência. Minha família foi passar o fim de semana na casa de praia de um tio em Jacaraípe. Em uma das noites saímos para jantar.
Enquanto os adultos e meu irmão mais novo ficaram no restaurante, acabei saindo com minha prima e sua amiga para dar uma volta pela orla. Elas eram alguns anos mais velhas que eu, em uma época da vida na qual isso faz alguma diferença. Logo que chegamos à rua, elas me deram os braços, uma de cada lado e disseram em meio a risos:
– Hoje a gente vai te atrapalhar, você não vai aprontar nada!
“Ótimo” – logo pensei.
Caminhamos rindo e falando amenidades por boa parte da orla. Lembro de ter ficado meio confuso em meio a tanta gente, principalmente pelo fato de ser uma das primeiras vezes que eu saia como adolescente.
Em um dado momento elas avistam alguns colegas de faculdade e me abandonam por um tempo para conversar com os sujeitos. Confesso que minha vontade imediata foi ir empatar a vida delas, assim como elas haviam prometido fazer comigo. Resisti. Aproveitei que estava “livre” e era um completo desconhecido para sair à caça.
Logo vi uma garota linda. Cabelos escuros e longos, pele clara, põem levemente queimada de sol e umas olheiras extremamente atraentes. Não sei o porquê, mas as olheiras dela me marcaram, acho que com um pouco de esforço até consigo revê-las em minhas memórias. Cheguei mais próximo a ela, pensando em como deveria abordá-la. Como eu disse era começo da minha adolescência e para um tímido convicto, aquilo era desafiador.
Um bom tempo se passou até que eu decidisse pelo simples e sempre confiável “oi”. Assim que me aproximava para puxar conversa, um cara chega até ela antes de mim. Comecei a praguejá-lo mentalmente. Todos os insultos que conhecia foram gastos contra ele e achei que eram insuficientes ainda. Então ele disse:
– E aí gata, quanto é o programa?
“Quebrou a cara! Vai levar um toco homérico!” – foi o que passou pela minha cabeça.
Quando, pra minha surpresa, ela respondeu:
– Cinqüenta reais e o táxi é por sua conta!
Enquanto o cara se afastava eu abria minha carteira desesperadamente e me perguntava o que ela estaria disposta a fazer por dez reais.